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Reciclagem de linhas telefônicas: uma ameaça à privacidade dos brasileiros?

Ramon de Souza 0 min

Já deve ter acontecido contigo: ao comprar um novo chip de telefonia pré-pago, você começa a receber mensagens de texto sobre cartões que você não tem e dívidas que você não registrou. Isso acontece por um motivo simples — a operadora em questão resolveu te presentear com uma linha reciclada, ou seja, um número que já pertenceu a outro indivíduo e foi encerrado por algum motivo (geralmente, por falta de inserção de créditos ou por solicitação do próprio dono original).

A reciclagem de linhas é uma prática perfeitamente comum entre as prestadoras brasileiras e que, embora não seja amparada em qualquer legislação específica, é permitida pela Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel). As telecoms garantem que, se não fosse pela reutilização de chips cancelados, a quantidade de combinações de números telefônicos no país poderia se esgotar em poucos anos.

O grande problema é que, ao que tudo indica, tal prática acaba indo em desencontro com o funcionamento de certas plataformas de comunicação, como o WhatsApp e mensageiros instantâneos semelhantes. Visto que o seu perfil nesses aplicativos costuma ser atrelado ao seu número de telefone, uma realocação da linha pode fazer com que outra pessoa “sequestre” certas informações pessoais.

Grupos recuperados após ativação de linha reciclada no WhatsApp (Reprodução: Fonte Anônima)

Como exemplo disso, a The Hack recebeu uma denúncia bem interessante de um leitor — que preferiu se manter no anonimato. Após adquirir um chip pré-pago e se cadastrar no WhatsApp, ele percebeu que o programa recuperou automaticamente uma série de grupos aos quais o antigo proprietário da linha estava participando. Ele inclusive foi contatado por amigos do ex-dono e, caso quisesse, poderia muito bem realizar uma campanha maliciosa de falsidade ideológica.

Problema recorrente

Uma rápida pesquisa no Google mostra que tal ocorrido não foi um episódio isolado. No site Reclame Aqui, encontramos uma queixa registrada contra a TIM por um consumidor de Guarulhos (SP). No texto, ele afirma que a operadora repassou sua linha depois que ela foi bloqueada por falta de créditos; o problema é que o novo proprietário do número teria sequestrado o seu perfil no WhatsApp e estaria extorquindo a sua rede de contatos, solicitando depósitos em dinheiro e dados bancários pessoais.

(Reprodução: Reclame Aqui)

Também identificamos reclamações similares no fórum oficial da operadora Vivo, incluindo um caso no qual a filha de um internauta foi banida de seu próprio WhatsApp após o cancelamento de sua linha. Quando o novo proprietário tenta entrar no aplicativo, porém, o SMS ainda estaria sendo encaminhado para o celular da dona original.

(Reprodução: Vivo)

A The Hack entrou em contato com a assessoria de imprensa do WhatsApp, e, a princípio, a companhia afirmou que o caso relatado por nossa fonte é “muito pontual”, oferecendo uma conversa com um executivo do aplicativo. Posteriormente, porém, a empresa se limitou a nos encaminhar o link para uma página de seu FAQ que esclarece esse tipo de incidente.

Segundo os termos do serviço, visto que “é comum que operadoras de celular reutilizem os números de telefone, é possível que o proprietário anterior do seu número já tenha utilizado o WhatsApp com este número”. Nesses casos, “pode ser que você e seus contatos vejam o seu número de telefone WhatsApp antes de você ativar uma conta nova”.

Embora o aplicativo ressalte que o antigo proprietário não possua acesso ao seu perfil, ele não comenta nada sobre eventuais confusões que possam ser criadas com outros contatos por conta dessa troca de propriedade.

“Para evitar e minimizar confusões com números reciclados, nós monitoramos a inatividade nas contas. Se uma conta não for utilizada por 45 dias e então passa a ser ativada por um novo usuário ou reativada em um aparelho diferente, nós vemos isso como um sinal de que o número foi reciclado. Neste momento, removemos a informação antiga da conta associada a este número, como a foto e o recado”, explica.

Só a ponta do iceberg

Obviamente, o problema de reciclagem de linhas telefônicas não se limita ao WhatsApp. Nos tempos atuais, é cada vez mais importante o uso de autenticação dupla para proteger contas em plataformas digitais e redes sociais, sendo que a verificação via SMS é a mais popular (embora não seja a mais segura).

Isto posto, o seu número de telefone se torna parte de sua identidade — é bizarro pensar que essa “parte de nossa identidade” possa virar “a identidade de outra pessoa” da noite para o dia.

No fim das contas, o cancelamento de uma linha por falta de recarga de créditos desestimula a adoção dessas tecnologias de segurança por parte da população em geral. Tentamos entrar em contato com as quatro principais operadoras brasileiras — TIM, Vivo, Claro e Oi — para conversar a respeito da prática de reciclagem de números, mas, até o momento em que esta reportagem foi fechada, nenhuma das marcas enviou um posicionamento a respeito.

Atualização: 26 de agosto, às 16h35

A Anatel entrou em contato com a The Hack para se posicionar a respeito do assunto. A agência nota que a numeração de linhas telefônica é algo regulamentado na Resolução nº 709/2019 e que a falha em questão é mais culpa do WhatsApp do que da forma de atuação das operadoras brasileiras. Confira o posicionamento na íntegra:

Trata-se de uma falha de segurança associada ao próprio aplicativo, a qual, pelo que se tem notícia ocorre em todo mundo e há vários anos.

Ocorre que o aplicativo em questão deveria contar com um segundo fator de autenticação obrigatório, como fazem diversas outras aplicações, não só confiando no número de telefone inicialmente cadastrado. Hoje o segundo fator de autenticação no Whatsapp, bem como em diversos outros serviços de internet (por exemplo Gmail), é uma faculdade do usuário, não tendo caráter obrigatório.

Dessa forma, o usuário, para sua própria segurança, necessitaria se atentar para registrar a sua alteração de número junto ao Whatsapp, o que muitas vezes não ocorre de fato.  


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