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Funcionários do Google criam sindicato nos EUA, mas... E no Brasil, como fica?

Guilherme Petry 0 min

Funcionários do Google fundaram uma organização sindicalista de luta por direitos e melhores condições de trabalho. Chamado de Sindicato dos Trabalhadores da Alphabet, o grupo busca apoiar os mais de 120 mil funcionários internos e os trabalhadores freelancers e temporários do Google nos Estados Unidos, além dos funcionários da sua empresa mãe, a Alphabet.

O Google enfrenta denúncias de abuso de profissionais e políticas anti-éticas há anos. O sindicato informa que ainda não pediu reconhecimento formal da empresa, mas já conseguiu apoio de um dos maiores sindicatos de trabalhadores do país, o CommunicationsWorkers of America (CWA).

O grupo busca receber os mais de 120 mil profissionais da empresa, além dos parceiros, terceirizados, fornecedores e temporários, que representam metade da equipe toda do Google nos EUA.

Os profissionais parceiros, no entanto, por trabalharem em uma outra empresa que presta serviços para o Google, não possuem os mesmos direitos, benefícios e salários. Mas em muitos casos trabalham dentro do escritório do Google. Um dos membros, o engenheiro de software, Dylan Baker, explica que o sindicato vai eleger um representante e as decisões serão tomadas democraticamente.

“Pagaremos taxas e contrataremos gestores qualificados para garantir que todos os funcionários do Google saibam que podem contar conosco se realmente quiserem que sua empresa reflita seus valores”, diz. O sindicato já conta com 227 funcionários cadastrados. Para fazer parte, é necessário doar 1% do salário para o grupo. Os membros se dividem em trabalhadores da sede, que fica em Mountain View, na Califórnia, e de escritórios subsidiários espalhados pelo país.

“A única tática que garantiu que os trabalhadores fossem respeitados e ouvidos é a ação coletiva... O Projeto Maven foi cancelado quando milhares de Googlers prometeram que não trabalhariam em tecnologia antiética. A arbitragem forçada foi encerrada quando os Googlers saíram de todo o mundo”, escreve o sindicato em um comunicado à imprensa.

A The Hack entrou em contato com o sindicato, perguntando se eles estão interessados em receber funcionários da empresa no Brasil ou de outros países, fora dos EUA, mas não obteve resposta.

E no Brasil?

A situação dos funcionários terceirizados do Google no Brasil não é muito diferente da dos EUA. Embora a lei trabalhista norte-americana seja muito diferente da nossa aqui no Brasil, os problemas internos podem ser bem parecidos.

A The Hack ouviu de um ex-funcionário, que preferiu não se identificar, que algumas empresas terceirizadas, as chamadas parcerias, exigem que seus desenvolvedores entreguem uma solução complicada em pouco tempo. Mas não oferecem as condições de trabalho adequadas.

“Jornadas de 15/16 horas, sem banco de horas, baixo salário, muita pressão, gerente enchendo saco, falando merda, até te xingando. Chega a ser bizarro. Já vi profissionais que deveriam ganhar R$ 6 mil, ganhando R$ 2 mil por mês”, diz. O engenheiro de machine learning conta que sua psiquiatra lhe ofereceu um laudo médico para processar judicialmente a empresa que trabalhava, após uma crise de Síndrome de Burnout que teve depois de cerca de um ano e meio trabalhando nessas condições.

A relação

Segundo a fonte, para evitar ter um escritório muito grande no Brasil, com muitos programadores e funcionários contratados, o Google, assim como outras empresas de tecnologia, prefere terceirizar o serviço de desenvolvimento contratando empresas parceiras.

“O Google (e várias outras empresas também), pra evitar ter um escritório gigantesco no Brasil, cheio de empregados, com todas aquelas comodidades e benefícios que eles adoram falar que tem (que realmente é muito bom mesmo), eles possuem várias outras empresas que prestam serviços para eles, são os parceiros”, diz.

Essas empresas parceiras recebem um valor acima da média do mercado, já que os clientes do Google são grandes e estão dispostos a pagar um bom dinheiro pela solução, desde que a entrega seja rápida, informa a fonte. “Uma empresa procura o Google para desenvolver uma aplicação de inteligência artificial, por exemplo. Então, o Google contrata uma empresa para desenvolver essa solução e divide o lucro com ela. É um acordo que varia, às vezes mais pro Google, às vezes mais para o parceiro”.

Para ser parceiro do Google é necessário cumprir algumas exigências, como principalmente, ter funcionários certificados em como usar as ferramentas da empresa. “É um programa de parceria, que cumpre certos requisitos, como provas e certificações”, explica.

“Eles oferecem uma plataforma de desenvolvimento de software, mas eles não desenvolvem os softwares para os clientes, quem os desenvolve são as empresas parceiras. O Google repassa demanda pros parceiros e eles que se virem para entregar no prazo. É uma terceirização indireta, de fim. Eles não estão terceirizando a faxina ou o restaurante, mas o produto.”

É importante lembrar que, a fonte acredita que o problema é o sistema e não as empresas, individualmente. “O Google só é parte do problema. O cliente quer a solução para uma semana, a gente [os desenvolvedores] leva dois meses pra fazer, mas eles querem que a gente faça em duas semanas. O Google, os parceiros, o cliente, os stakeholders... O problema é lidar com esses prazos arrochados”, conclui.


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