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Por dentro do fascinante museu de arcades soviéticos

Ramon de Souza

Pensar na história dos jogos eletrônicos é lembrar, na maioria das vezes, de títulos desenvolvidos no Ocidente e no Japão. Esses dois pólos sempre foram, de fato, os maiores representantes dessa indústria de entretenimento. Os primeiros arcades — ou fliperamas, se preferir — foram projetados pela SEGA no final da década de 60; ao longo dos próximos anos, nomes como Taito, Midway e Nintendo se tornaram cruciais para viciar o mundo inteiro em gastar fichas nessas máquinas excêntricas.

Porém, enquanto o mundo inteiro se divertia com os labirintos de Pac-Man ou com as espaçonaves de Space Invaders, um conjunto de países, com suas políticas anticapitalistas, preferiam se privar dessas inovações “fúteis” oriundas do mundo moderno. Sim, estamos falando da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, que, em plena era dourada dos arcades japoneses, preferia montar seus próprios maquinários de entretenimento e manter seus jovens longe de qualquer influência externa.

(Reprodução: The Arcade Blogger)

O que muitos não sabem é que existe um museu — separado em duas unidades, sendo um em Moscou e outro em São Petersburgo — dedicado exclusivamente a colecionar, restaurar e expor arcades soviéticos.

Como você deve imaginar, não é nada fácil encontrar esses exemplares, visto que eles são raríssimos e na maioria das vezes estão em péssimo estado de conservação. Porém, tais peças históricas são uma maneira divertida de entender a mentalidade e a cultura dos países euro-asiáticos da época.

Um curioso patrimônio

Atualmente, o The Museum of Soviet Arcade Games concentra 250 máquinas, embora apenas 100 delas estejam em exposição. De acordo com Daria Zvereva, curador do museu, a ideia de fundá-lo partiu do desejo de um trio de amigos em reviver memórias de sua infância, buscando exemplares de títulos que ele gostava de jogar quando era criança. O primeiro item a ser adquirido era uma nostalgia unânime: Morskoi Boi (“Sea Battle” ou Batalha Naval).

Atualmente, além dos videogames, o local também conta com uma máquina automática de vendas cheia de bebidas clássicas, uma antiga mesa de pingue-pongue e uma cabine de fotografia analógica. Cada visitante recebe uma moeda original de 15 kopek (centavos de rublos) para gastar à vontade nos arcades. Os passeios guiados são organizados no idioma local ou em inglês.

“Nós percebemos que até os nossos visitantes mais jovens fazem comparações entre os arcades soviéticos e os títulos modernos. Eles apreciam que essas máquinas pioneiras são uma parte tangível de nosso patrimônio”, afirma Daria.

Reciclando materiais bélicos

Obviamente, por se tratar de peças construídas em uma união anticapitalista, os fliperamas soviéticos têm algumas características bem interessantes. Primeiramente, sua qualidade de construção é bem inferior: na URSS, não existiam empresas especializadas em criar jogos eletrônicos, então os gabinetes eram produzidos em fábricas militares usando restos de eletrônicos e armas reais. Na época, essa era a única indústria que tinha dinheiro e habilidade o suficiente para construir algo tão complexo.

“A visão do governo naquela época era de que essas máquinas eram caras demais: um único arcade custava quase a metade do preço de um carro soviético. O Estado decidiu não criar empresas ou fábricas especializadas em manufaturar fliperamas”.

Esse fator só torna o trabalho dos curadores ainda mais difícil — visto que as fábricas de material bélico da União Soviética eram praticamente secretas, seus nomes e endereços permaneciam em segredo. Por isso, as máquinas não possuem qualquer menção sobre suas fabricantes, sendo identificadas apenas por logotipos simples e um número de série. Fica complicado encontrar qualquer tipo de documentação oficial e estabelecer uma linha do tempo confiável.

(Reprodução: The Arcade Blogger)

Outra característica curiosa é o fato de que, na maioria das vezes, os fliperamas eram construídos com o objetivo de despertar o interesse dos jovens por alguma habilidade prática valorizada pela ideologia soviética — como pontaria e condução de veículos. Essa era uma maneira de justificar a produção de máquinas tão caras para um governo que considerava tal hobby como algo inútil.

Ficou interessado no museu? Se você não pretende viajar para a Rússia tão cedo, o vídeo abaixo pode ser o suficiente para matar a sua curiosidade — ao menos por enquanto.


Fonte: The Arcade Blogger, The Museum of Soviet Arcade Games

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